A Embrapa recomenda três frentes para reduzir perdas com o El Niño na soja: respeitar as janelas do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), escalonar a semeadura com cultivares de ciclos diferentes e proteger o solo com palhada. No Sul, onde o risco é excesso de chuva, a orientação inclui cultivares resistentes e tratamento de sementes com fungicida específico contra a podridão-radicular de fitóftora.
O fenômeno não age da mesma forma no país inteiro. Segundo a Embrapa, ele tende a trazer mais chuva ao Sul e menos chuva a partes do Norte e do Nordeste, além de temperaturas mais altas em algumas áreas. Por isso, a decisão certa depende de onde está a lavoura.
Este conteúdo reúne as recomendações oficiais por região e mostra onde o tratamento de sementes entra nesse planejamento.
O que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera a circulação da atmosfera e modifica o regime de chuvas e temperaturas em várias partes do mundo, incluindo o Brasil.

Como o fenômeno se forma
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o El Niño se configura quando a temperatura da água fica pelo menos 0,5 °C acima da média, por alguns meses, em áreas do Pacífico próximas à Linha do Equador.
O aquecimento do oceano, sozinho, não basta. A atmosfera também precisa responder. O principal sinal é o enfraquecimento dos ventos alísios, que sopram de leste para oeste no Equador. Com isso, muda o padrão de ventos e de formação de chuvas em praticamente todo o globo.
Quem monitora o El Niño
A temperatura do Pacífico Equatorial é medida por uma rede de boias oceanográficas coordenada pela NOAA, a agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos. No Brasil, o monitoramento e a previsão ficam a cargo do INPE, por meio do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC). O Inmet acompanha as previsões meteorológicas para o país.
Por que o El Niño afeta a soja
O efeito sobre a soja aparece em dois extremos. Onde chove demais, há encharcamento, erosão e mais doenças fúngicas. Onde chove de menos, há atraso no plantio, veranicos e estresse hídrico nas fases de maior demanda de água.
O calendário agrava o risco. De acordo com o INPE, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina o aumento das chuvas ocorre na primavera, justamente na época de semeadura da soja. Já o inverno mais quente no Sul, no Sudeste e em parte do Centro-Oeste pode atrasar o início da estação chuvosa.
El Niño e mudança do clima
Para o INPE, o El Niño potencializa os eventos extremos provocados pelo aquecimento global, como chuvas intensas e ondas de calor. As projeções indicam que o fenômeno pode se tornar mais frequente e intenso, embora isso ainda não possa ser afirmado com segurança.
Por isso, a gestão de risco climático deixa de ser uma resposta pontual e passa a fazer parte do planejamento permanente da safra.
Para orientar o setor, a Embrapa entregou ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) uma nota técnica com 163 medidas de gestão de riscos climáticos. A nota vale para toda a agropecuária, não só para a soja: 14 medidas são transversais a todo o setor, 139 são específicas para cadeias como grãos e fibras, fruticultura, silvicultura, olericultura, pastagens e pecuária, culturas industriais e aquicultura, e 10 são ações de apoio a políticas públicas. Cerca de 50 especialistas da Embrapa, com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), participaram da elaboração. Este conteúdo foca nas recomendações para a soja e no papel do tratamento de sementes.

Orientações da Embrapa por região
A Embrapa publicou recomendações regionais para as cinco regiões. Abaixo, o resumo do que vale para soja e milho nos principais estados produtores.
Sul: excesso de chuva, erosão e doenças
No Sul, a previsão é de chuvas mais intensas e concentradas na primavera. O excesso pode encharcar o solo, causar erosão e dificultar operações como semeadura, aplicação de insumos e colheita.
As principais recomendações para soja e milho são:
- Manter o solo protegido com palhada formada ainda no inverno (aveia, centeio, nabo forrageiro).
- Adotar semeadura em nível e terraceamento para controlar o escoamento da água.
- Adequar a densidade de semeadura e garantir drenagem superficial eficiente.
- Reforçar o monitoramento de doenças, como ferrugem-asiática, mofo-branco, mancha-alvo e antracnose.
Centro-Oeste: seca e atraso das chuvas
Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal têm maior risco de seca. Já o sul de Mato Grosso do Sul tende a receber mais chuva. Segundo a Embrapa, o período mais crítico para a seca vai de novembro a janeiro.
A orientação é seguir as janelas do Zarc, usar cultivares com melhor desempenho em seca e calor, escalonar o plantio e manter a cobertura do solo. A Embrapa também recomenda aguardar umidade adequada antes de semear.
Sudeste: chuva acima da média em parte, seca em outra
A previsão indica chuvas acima da média em São Paulo e no centro-sul de Minas Gerais, e condições mais secas no norte de Minas. As temperaturas tendem a ficar acima da média em toda a região.
Para soja e milho, a recomendação é seguir o Zarc e adotar práticas e tecnologias voltadas à tolerância ao estresse hídrico.
Norte e Nordeste: água como fator decisivo
Nas duas regiões, o risco principal é a redução e a irregularidade das chuvas. A palhada de braquiária, milheto ou crotalária ajuda a reter água no solo e a reduzir sua temperatura.
A Embrapa também alerta que o clima mais seco pode favorecer pragas como a mosca-branca e exige monitoramento para aplicar defensivos no momento certo.
Resumo: El Niño e soja por região
| Região | Risco principal | Recomendação-chave da Embrapa |
|---|---|---|
| Sul | Excesso de chuva, encharcamento, erosão e doenças fúngicas | Solo coberto, semeadura em nível, drenagem e tratamento de sementes com fungicida específico |
| Centro-Oeste (MT, GO, DF) | Atraso das chuvas, veranicos e seca entre novembro e janeiro | Seguir o Zarc, cultivares tolerantes a seca e calor, semear com umidade adequada |
| Centro-Oeste (sul de MS) | Chuva acima da média na primavera, sem descartar veranicos | Seguir o Zarc e escalonar a semeadura |
| Sudeste | Cenário misto: mais chuva em SP e centro-sul de MG, seca no norte de MG | Seguir o Zarc e manejo voltado ao estresse hídrico e térmico |
| Norte e Nordeste | Redução e irregularidade das chuvas | Palhada para reter água, cultivares adaptadas e monitoramento de pragas |
Fonte: Embrapa.

O tratamento de sementes no planejamento contra o El Niño
O tratamento de sementes aparece de forma direta nas recomendações da Embrapa para o Sul. Segundo a pesquisadora Leila Costamilan, da Embrapa Trigo, o primeiro problema em anos de chuva frequente costuma ser a podridão-radicular de fitóftora.
A doença causa as maiores perdas na emergência das plantas e leva muitas lavouras à ressemeadura. A orientação é combinar cultivares resistentes com tratamento de sementes com fungicida específico.
A nota técnica da Embrapa reforça que o estabelecimento da lavoura é uma das fases mais sensíveis ao clima. Com chuva acima da média, o documento aponta tombamento de plântulas causado por Pythium e Rhizoctonia e podridão de sementes por falta de oxigênio no solo encharcado.
Com atraso das chuvas ou calor excessivo, os riscos listados são mortalidade de plântulas, falhas de estande e emergência desuniforme. Esta última, segundo a nota, também complica o manejo fitossanitário e a época de aplicação de herbicidas e fungicidas.
É exatamente nessa janela, entre a semeadura e a formação do estande, que o tratamento de sementes atua.
Por que o custo de errar no início é alto
Uma falha no estabelecimento da lavoura costuma custar mais do que a prevenção. A ressemeadura exige nova semente, nova operação de plantio e, muitas vezes, uma semeadura fora da janela indicada pelo Zarc.
Ou seja: o produtor volta a se expor justamente ao risco climático que tentava evitar. Em um ano de El Niño, proteger o estande desde a semente é parte da gestão de risco.
Leia também: quer garantir que o tratamento entregue a proteção planejada? Veja o Manual de Boas Práticas em TSI.
Qualidade de aplicação pesa mais em ano de risco
O tratamento só protege se o produto chegar à semente na dose certa e com cobertura uniforme. Falhas de cobertura ou de aderência reduzem a eficiência do fungicida antes mesmo de a semente chegar ao campo.
No Tratamento de Sementes Industrial (TSI), cada lote recebe a dosagem calculada pela receita, sob controle de processo. No processo em batelada, a semente é pesada, recebe a calda e passa pela mistura lote a lote, o que favorece a homogeneidade da cobertura. Entenda mais em Tratamento industrial de sementes: como blindar sua safra.
O que o El Niño muda na operação da sementeira
Uma das 14 medidas transversais da nota técnica da Embrapa é manter a capacidade operacional compatível com janelas meteorológicas restritas. A recomendação é dimensionar máquinas, mão de obra, transporte, secagem, armazenagem e processamento para executar as operações críticas dentro das janelas de clima disponíveis.
O documento classifica essa medida como de médio prazo, com horizonte de 1 a 3 anos. Ou seja: capacidade operacional se planeja antes da safra, não na véspera do plantio. A nota também inclui entre as medidas transversais o plano de contingência para eventos climáticos e a capacitação de equipes.
Na prática, as recomendações de campo têm reflexo direto na UBS:
- Semeadura escalonada com cultivares de ciclos diferentes tende a exigir mais lotes, mais receitas e trocas de cultivar ao longo da janela.
- Janelas mais curtas entre chuvas, no Sul, ou plantio atrasado à espera de umidade, no Centro-Oeste, podem concentrar a demanda de semente tratada em poucos dias.
- Receitas com fungicida específico para fitóftora exigem dosagem precisa e rastreável por lote.
Uma tratadora de sementes por batelada permite ajustar a receita a cada lote, o que se encaixa nesse cenário de múltiplas cultivares e tratamentos. A capacidade em quilos por batelada e o tempo de ciclo definem quanto a operação consegue entregar no pico.
Perguntas frequentes sobre El Niño e soja
O que é o El Niño?
O El Niño é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, que altera a circulação da atmosfera e muda o regime de chuvas e temperaturas no Brasil.
Como saber se o El Niño está configurado?
Segundo o INPE, o fenômeno se configura quando a temperatura da água fica pelo menos 0,5 °C acima da média, por alguns meses, no Pacífico Equatorial, e a atmosfera responde, principalmente com o enfraquecimento dos ventos alísios.
O El Niño causa perdas na soja em todo o Brasil?
Não. Segundo a Embrapa, os efeitos variam por região: mais chuva no Sul, menos chuva em partes do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e cenário misto no Sudeste.
Qual é o período mais crítico de seca no Centro-Oeste?
Segundo a Embrapa, o período mais crítico vai de novembro a janeiro em Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal. A orientação é aguardar umidade adequada no solo antes de semear.
Seguir o Zarc ajuda em ano de El Niño?
Sim. O Zarc considera o histórico climático de cada município, incluindo anos de El Niño, e a Embrapa o aponta como primeira medida de prevenção. A consulta é gratuita pelo aplicativo Plantio Certo.
Semear tudo de uma vez reduz o risco?
Não. A Embrapa recomenda escalonar a semeadura e combinar cultivares de ciclos diferentes, para que um evento extremo não atinja toda a lavoura na mesma fase.
Quais doenças de solo mais preocupam na emergência com excesso de chuva?
A nota técnica da Embrapa aponta o tombamento de plântulas causado por Pythium e Rhizoctonia e a podridão de sementes por falta de oxigênio no solo encharcado. No Sul, a Embrapa Trigo destaca a podridão-radicular de fitóftora.
O tratamento de sementes ajuda a reduzir perdas com o El Niño?
Sim. A Embrapa recomenda tratamento de sementes com fungicida específico, combinado a cultivares resistentes, contra a podridão-radicular de fitóftora, favorecida por solos encharcados no Sul.
Por que a emergência desuniforme é um problema?
Segundo a nota técnica da Embrapa, a emergência desuniforme complica o manejo fitossanitário e a definição da época de aplicação de herbicidas e fungicidas.
Quais doenças foliares monitorar no Sul em ano de El Niño?
A Embrapa recomenda reforçar o monitoramento de ferrugem-asiática, mofo-branco, mancha-alvo e antracnose, favorecidas pelo excesso de umidade.
A unidade de beneficiamento de sementes também precisa se preparar para o El Niño?
Sim. Uma das medidas transversais da Embrapa é manter a capacidade operacional compatível com janelas meteorológicas restritas, dimensionando máquinas, mão de obra, secagem, armazenagem e processamento, com horizonte de 1 a 3 anos.
Por que a qualidade da aplicação no TSI pesa mais em ano de risco?
Porque o tratamento só protege se o produto chegar à semente na dose certa e com cobertura uniforme. No processo em batelada, cada lote é pesado, recebe a calda e passa pela mistura, o que favorece a homogeneidade da cobertura.
Conclusão
O El Niño aumenta o risco, mas não define o resultado da safra sozinho. A Embrapa é clara: seguir o Zarc, escalonar a semeadura, proteger o solo e monitorar doenças e pragas reduz perdas em qualquer região.
No início do ciclo, o tratamento de sementes protege o estande justamente na fase mais sensível. Em um ano de clima irregular, a qualidade e a capacidade desse tratamento entram no plano de gestão de risco.
Sua operação está preparada para tratar mais lotes, com receitas diferentes, em janelas mais curtas? Fale com um consultor da LS do Brasil e avalie a capacidade de tratamento ideal para a sua UBS.







